Há alguns anos, as plataformas de streaming eram vistas como as melhores amigas dos fãs de séries, resgatando atrações interrompidas pela TV tradicional ou assegurando temporadas finais até para produções originais com pouca audiência. Hoje, porém, o cenário é o oposto: as antigas salvadoras da pátria viraram as inimigas número 1 do público e já cancelam mais conteúdo do que os canais lineares (abertos e pagos).
A informação consta em um estudo da empresa Luminate, que analisa dados da indústria do entretenimento. Segundo o relatório, os serviços de streaming renovaram apenas 48% das produções norte-americanas com roteiro (ou seja, obras de ficção) lançadas em 2025.
As redes de TV aberta dos Estados Unidos, por sua vez, encomendaram novas temporadas de 60% das suas estreias do ano passado. Os canais de TV por assinatura foram ainda mais benevolentes: deram uma segunda temporada para 76% das séries novatas.
O cenário era bem diferente em 2022. Naquele ano, as plataformas de video on demand renovaram 52% de seus lançamentos, contra apenas 43% da TV aberta. Os canais pagos já lideravam, mas com menos complacência: 58% das séries norte-americanas que estrearam no período ganharam mais episódios.
A Luminate optou por contabilizar renovações, em vez de cancelamentos, por uma questão prática: como os streamings, em sua maioria, não trabalham com a lógica da TV aberta de lançar uma temporada anualmente, os anúncios de fim da série podem levar meses ou até anos para acontecer. The Politician, produção de Ryan Murphy para a Netflix, por exemplo, nunca foi oficialmente cancelada, apesar de não ter episódios inéditos desde 2020.
A mudança no cenário chama a atenção justamente porque os assinantes viam no streaming um porto seguro para que suas atrações favoritas fossem concluídas. A Netflix ainda engatinhava na produção de conteúdo quando salvou The Killing (2011-2014) do cancelamento determinado pelo canal AMC e encomendou uma quarta temporada para encerrar a história.
A história se repetiu com Arrested Development (2003-2006; 2013-2019), Lucifer (2016-2021), Manifest (2018-2023) e até séries que viraram símbolo da plataforma, como Cobra Kai (2018-2025), originalmente do YouTube, e You (2018-2025), que teve a primeira temporada exibida pelo canal Lifetime.
O jogo virou (para pior) quando Sense8 (2015-2018) foi cancelada após duas temporadas sem uma conclusão adequada. Os fãs se sentiram traídos pela Netflix e reclamaram tanto que a plataforma ainda concedeu uma colher de chá: um filme para amarrar as pontas soltas.
De lá para cá, as facadas nas costas apenas pioraram: muitos ainda não superaram o cancelamento de séries como Anne with an E (2017-2019), The OA (2016-2019), Julie and the Phantoms (2020) e Glow (2017-2019). A maior aliada dos “seriadores” se transformou em adversária.
Novo mercado força TV aberta a mudar
Curiosamente, a TV aberta foi de vilã a heroína justamente por causa das mudanças no mercado provocadas pelo streaming. Se, no passado, ela concentrava a maior parcela do público e de interesse dos anunciantes, agora precisa lutar por eles com plataformas de video on demand e redes sociais.
Para se ter uma ideia do tamanho do problema, Grey’s Anatomy chegou a atingir 25 milhões de espectadores por episódio no seu auge. Na temporada mais recente, a 22ª, o drama médico não conseguiu superar a marca dos 3 milhões em nenhum capítulo.
Com a audiência em queda, também há menos receita de publicidade, e os custos cada vez mais altos não permitem que as redes de TV mantenham sua foice tão afiada quanto fora no passado –quando séries com baixa audiência eram canceladas apenas dois ou três episódios.
Agora, é mais seguro exibir uma série com público pequeno, porém fiel, do que arriscar em um projeto novo, com retorno incerto e que exigirá um investimento grande em publicidade. Por isso, é cada vez menos comum que uma série seja tirada do ar antes de encerrar a temporada.
Fonte: Notícias da TV
