Perfil das vítimas e dos agressores revela a permanência da violência dentro de relacionamentos e a escalada de crueldade nos assassinatos

A violência contra a mulher mantém um cenário preocupante em Mato Grosso do Sul. Em 2026, até o início de agosto, 12.438 mulheres foram vítimas de violência doméstica no Estado e 21 foram assassinadas em crimes classificados como feminicídio.

Os números do Monitor da Violência Doméstica e Familiar contra a Mulher, do Tribunal de Justiça de Mato Grosso do Sul (TJMS), mostram que os assassinatos seguem um padrão recorrente: mulheres adultas, mortas principalmente dentro de casa e, em grande parte dos casos, por companheiros ou ex-companheiros.

O levantamento também chama atenção para a forma como alguns desses crimes são cometidos. Facadas, tiros, espancamentos, queimaduras, atropelamentos e outras formas de violência extrema aparecem entre os registros recentes.

Mulheres de 30 a 59 anos são maioria entre as vítimas

Embora qualquer mulher possa ser vítima de violência, os dados indicam maior concentração dos casos entre mulheres de 30 a 59 anos. Na sequência aparecem aquelas com idade entre 18 e 29 anos, enquanto crianças, adolescentes e idosas representam uma parcela menor das ocorrências.

O ambiente doméstico também aparece como principal cenário da violência. São 157.988 ocorrências registradas em residências, número superior a cinco vezes o total de casos contabilizados em vias públicas, que chega a 30.398.

Entre os feminicídios registrados no levantamento, 214 mulheres foram mortas dentro de casa, sendo nove somente em 2026.

Para a subsecretária de Políticas Públicas para Mulheres, Manuela Nicodemos Bailosa, o cenário demonstra a repetição de um padrão ao longo dos anos.

“Majoritariamente, são mulheres mortas dentro de casa pelos seus parceiros, maridos, ex-maridos, namorados ou ex-namorados. São mulheres que desejam recomeçar a vida afetiva, querem se separar, e os responsáveis por esses crimes são homens que, majoritariamente, não aceitam o fim do relacionamento.”

Relações afetivas aparecem entre os principais vínculos

Desde 2016, Mato Grosso do Sul contabiliza 375 feminicídios. A maior parte das vítimas também está na faixa dos 30 aos 59 anos.

O vínculo entre vítima e autor reforça a relação direta entre feminicídio e violência praticada no ambiente afetivo. Os registros apontam 78 crimes cometidos por cônjuges, 23 por conviventes e sete por namorados.

Apesar de também existirem casos envolvendo outros vínculos familiares, a maior parte dos assassinatos está relacionada a companheiros ou ex-companheiros.

“Existem feminicídios de filhos contra as mães, mas a grande maioria é praticada por companheiros ou ex-companheiros que não aceitam o término da relação”, explica Bailosa.

Cinco feminicídios em apenas oito dias

A gravidade do cenário ficou ainda mais evidente entre 30 de julho e 6 de agosto, período em que Mato Grosso do Sul registrou cinco feminicídios. A média equivale a uma mulher assassinada a cada aproximadamente 38 horas.

O caso mais recente ocorreu na madrugada de 6 de agosto, em Rio Verde de Mato Grosso. Nathalia Rodrigues Nogueira, de 26 anos, foi morta a facadas pelo companheiro após uma discussão. O suspeito fugiu e permanecia sendo procurado pela polícia.

Na primeira semana de agosto, outros dois casos foram registrados. Rose Batista Cabreira foi assassinada em Dourados, no dia 2, enquanto Adriana Barrios foi morta em Paranhos, no dia 5.

Para a subsecretária, os casos evidenciam como o controle e a dificuldade de aceitar o fim de um relacionamento podem estar associados aos feminicídios.

Segundo ela, muitas vítimas estão em relações marcadas por controle, desigualdade, medo, humilhação, ameaças e perseguições. Em outros casos, são mulheres que tentam reconstruir a própria vida após decidir terminar uma relação.

Violência extrema marca parte dos crimes

A maneira como os assassinatos são cometidos também preocupa. Dos 21 feminicídios registrados em Mato Grosso do Sul em 2026, seis vítimas foram mortas a facadas e cinco foram assassinadas a tiros.

Os demais casos envolveram diferentes formas de agressão, incluindo pauladas, golpes de marreta, espancamento, asfixia, sufocamento, atropelamento, agressões com objetos e carbonização.

Em Paranhos, Ereni Benites, de 44 anos, foi assassinada pelo ex-marido e teve o corpo carbonizado dentro da própria residência.

Em Campo Grande, Ely da Silva Quevedo, de 53 anos, morreu após ser atropelada pelo ex-marido, que teria utilizado o próprio carro para cometer o crime.

Já em Mundo Novo, Zelita Rodrigues de Souza, de 74 anos, foi encontrada com sinais de espancamento e parte do cabelo arrancado. Em Ponta Porã, Liliane de Souza Bonfim Duarte, de 52 anos, morreu dias depois de ser atacada pelo marido com golpes de marreta.

Para Manuela Bailosa, a brutalidade empregada em parte dos crimes demonstra uma escalada da violência.

“Dificilmente uma mulher é morta com um tiro. Geralmente, essas mulheres são mortas com 14, 15, 16 facadas, são arrastadas ainda vivas, queimadas vivas ou perdem suas vidas junto com seus filhos. Essa crueldade tem caracterizado a maior parte dessas ocorrências.”

A violência pode continuar mesmo após o assassinato

Outro aspecto observado em alguns casos é o suicídio do agressor depois de matar a companheira. Para a especialista, esse comportamento pode representar uma tentativa de responsabilizar a própria vítima pelo crime, mesmo depois de sua morte.

Um dos casos ocorreu com Terezinha Nantes de Arruda, de 54 anos, assassinada a facadas pelo marido, Joel Escócia Carvalho, de 59 anos. Os dois mantinham um relacionamento de aproximadamente 30 anos e, segundo as investigações, estavam em processo de separação.

Antes do crime, Joel enviou um áudio ao filho indicando que uma tragédia aconteceria. Horas depois, os dois foram encontrados mortos dentro da residência, na Vila Bandeirantes, em Campo Grande.

A perícia encontrou lesões de defesa no corpo de Terezinha, indicando que ela tentou se proteger durante as agressões. Depois de matá-la, o homem utilizou a mesma faca para tirar a própria vida.

Para Manuela Bailosa, esse tipo de comportamento está relacionado a uma tentativa de transferir para a vítima a responsabilidade pelo crime.

“É como se fosse um mecanismo do feminicida para culpabilizar a vítima pela própria morte, mesmo depois de ele ter tirado a vida dela.”

A subsecretária avalia que a persistência dos feminicídios está ligada à desigualdade de gênero e à tolerância social diante de comportamentos violentos contra mulheres.

“Essa violência se cristaliza na sociedade quando não há indignação diante de atitudes de desrespeito contra uma mulher.”

Denúncias e atendimento

Mulheres vítimas de violência ou pessoas que tenham conhecimento de situações de agressão podem procurar os serviços especializados da rede de proteção e registrar denúncias junto às autoridades competentes.

Em situações de emergência ou risco imediato, a orientação é procurar o serviço de emergência policial disponível em sua região.

A violência doméstica pode assumir diferentes formas, incluindo agressões físicas, ameaças, perseguição, humilhação, controle financeiro e violência psicológica. Identificar os sinais e buscar ajuda pode ser fundamental para interromper o ciclo de violência.

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